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Ipsum
Dizer que algo existe é abrir precedentes para a sua não existência. A idéia de existência tende a coisificar ou personificar. Por isso, refletindo numa conversa entre amigos, cheguei a este pensamento: Deus não existe!

Não. Não sou atéia. Quero falar aqui justamente àqueles que acreditam num Ser, muito superior e poderoso, autor de tudo o quanto se move, existe, se comunica, se entrelaça no universo, do micro ao macrocosmo; que acredita no mantenedor de todo equilíbrio, dos sistemas, do caos à ordem, no presente, passado e futuro.

A existência é vulnerável. Se algo existe, está em algum lugar, sofrendo a ação do tempo, do espaço. E se isso fosse atribuído a Deus, não poderia ser ele a suprema e soberana inteligência, causa primeira de todas as coisas.



Ainda há a necessidade de dizer que Deus existe. A existência de um ser superior, que a todos observa, deixa acuados os instintos de maldade. Aceitar a existência de Deus é admitir que existe um ser superior que reprova, condena. É a idéia de um pai que castiga o filho pelos erros. Ainda é necessário crer num personagem repressor para frear a maldade. Assim acontece com a idéia do demônio; é muito mais cômodo atribuir a outro ente a maldade alojada no nosso íntimo ou os revezes da nossa existência.

Talvez, por isso, houve uma época em que homens, insatisfeitos com a idéia de serem joguetes de um ser que determinava todo seu destino, estabeleceram a morte de Deus. Os filósofos existencialistas acreditavam que Deus cerceava toda a liberdade de expressão do homem. Com a morte dele, as pessoas eram o que eram, autores e responsáveis pelos seus atos.

Veio, então, a Doutrina Espírita dizer que temos livre arbítrio e somos responsáveis pelo uso que fazemos dele. Mas esta não é uma simples concordância com os existencialistas. O espiritismo não se desfez de Deus. Pela simples observação, havemos de concordar com o verdadeiro tratado sobre Deus que Allan Kardec escreve no capítulo II de A Gênese: todo efeito inteligente, tem que decorrer de uma causa inteligente. Ora, a causa não existe; ela é! Ser é constante.

Deus é constante. Está criando constantemente; é a causa primeira e constante de criações e mais criações. Por isso, a partir do que não pode ser, Allan Kardec definiu alguns atributos a Deus: a imaterialidade e imutabilidade – porque, como causa primária, não pode estar sob as alterações físicas; a eternidade – pois, se tivesse começo, teria sido efeito de outra causa, muito superior; a soberana e suprema inteligência e onipotência – se fosse diferente, poderíamos conceber um ser mais inteligente e mais poderoso; soberana justiça e bondade – porque, se assim não fosse, seria parcial e continuaríamos joguete de um ser mais poderoso.

É preciso ser para existir. O ser vem antes da existência. Outro ponto que vai de encontro aos existencialistas. O ser é essência, força motora para a ação do existir sobre e no mundo. Agimos sem existir! Mas não agimos sem ser. Algo não precisa existir se é. A existência é fugaz. Se algo existe é porque alguma coisa o gerou. Existe, está lá, seja onde for, distante. Existe agora; pode não existir depois. Ser dá a idéia de penetrar todos os recantos do mundo, a tudo e a todos; dá idéia de constância, sempre; que atua em todos os momentos. A verdadeira providência.

Por isso, a esta frase tão sartreana – Deus não existe –, complemento: Deus é!

*Andréia Vargas é jornalista, membro da ASSEPE (Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa)

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