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Kardec alertou-nos para o fato de que são diferentes os ensinamentos de Jesus e as doutrinas oriundas da má compreensão de suas idéias.


Estranhamente, ainda grassa no movimento espírita, grande confusão entre as duas coisas. Pena que o codificador, sempre tão cuidadoso com as palavras, a ponto de criar neologismos para evitar duplicidade de interpretação, não tenha sido mais explícito nessa diferenciação.

Também seria demais, querer que àquela época, afrontasse tão diretamente as forças religiosas vigentes, pois se queimavam livros, poderiam voltar a queimar pessoas. Ainda hoje “queimam”, de maneiras não tão dolorosas fisicamente, mas certamente com o mesmo grau de intolerância.

Assim, não é inadequado dizer-se que cristianismo é exatamente a deturpação das idéias veiculadas por Jesus. E seu ensinamento ético/moral, autêntico, poderia ser, a título de ilustração, o “Jesusismo”, dado que Jesuitismo já foi anteriormente usado e muito mal.



Os primeiros apóstolos saíram a propagar as idéias de Jesus, visando mudar moralmente as criaturas. As instituições religiosas, surgidas principalmente a partir de Paulo, o Apóstolo, (um judeu) e do Imperador Constantino, (um romano) acabaram servindo a projetos políticos de dominação, através da imposição de crenças.

As idéias de Jesus transformaram-se em causas humanas e não divinas. Agregaram-se a elas, por essas e outras vias, cultos e práticas religiosas daquelas duas etnias. Do judaísmo, absorveu algumas simbologias, a prática das promessas e oferendas, como se fosse possível fazer negócios com Deus! Do imponente caráter romano, tomaram as cerimônias, altares, imagens, procissões, estandartes. Essa miscelânea deu origem ao catolicismo, sendo daí em diante, bem mais conhecida, a triste trajetória do cristianismo, sob diversos credos.

O incrível de tudo isso, é que Jesus não tinha sobrenome. No máximo, era o “Nazareno”. “Cristo” é um apelido que os judeus lhe pregaram. A palavra significa “O Messias” e ele mesmo nunca se autodenominou assim. A Poncio Pilatos, que lhe perguntou se era o messias, respondeu: “- Vós o dizeis …” É mais do que patente, que judeus e romanos nunca compreenderam a Jesus, nem o que ele significava e muito menos o que pretendia. Portanto, “Cristo” é uma contrafação, um mito perpetuado.

Hoje e infelizmente, a maioria dos espíritas brasileiros briga para herdar essa cultura judaico-cristã, agregando-se esse último adjetivo. Tornaram-se “espíritas crentes”, do tipo evangélico ou católico. Deviam preferir, conforme recomendação de Kardec, apenas se modelarem pelo caráter de Jesus, deixando a louvação de lado, pois certamente que Jesus, tão bom, simples e modesto, deve ficar constrangido com tanta bajulação, além do mais, inócua. Porque o deificam, mas em geral não lhe prestam o tributo da decência, de um comportamento socialmente ético e moral.

Embora se afirme que o espiritismo é o “cristianismo redivivo” querendo significar uma retomada aos eternos e bons princípios pregados por Jesus, o que atualmente se vê no meio espírita, é o recrudescimento da idolatria da sua figura. Por atavismo religioso e ignorância do que seja o Cristo Mítico, promove-se a sua entronização, colocando-o indevidamente em altares físicos e mentais, na posição de Deus.

Nem Jesus nem Kardec criaram religiões. Ambos disseminaram idéias, recomendaram integridade moral e uma íntima ligação com o Criador. As religiões foram inventadas por seus seguidores equivocados, em nome dos dois e em nome de Deus. Sem nenhuma procuração…

Toda vez que o homem se põe a falar e a dar ordens em nome de Deus, erra. A ciência da evolução, tão cara aos espíritas, vem demonstrando que o desejo de Deus é que o homem apenas viva, passando por aprendizados, aperfeiçoando-se e seguindo o curso normal das experiências. Sem pressa, sem afobações, por séculos, até atingir estágios superiores de conhecimento e elevação espiritual. Não tem salvacionismo que o livre dessa trajetória, porque já nasceu salvo e destinado à felicidade e perfeição relativa.

Quando se afirma que o espiritismo não é uma religião, conforme a própria definição de Kardec, os partidários da vertente religiosa, quase sempre exaltados, tendem a reagir de modo emocional e dogmático, taxando a corrente contrária de herege e afirmando sem razão, que ela deseja tirar Jesus do Espiritismo.

Toda essa animosidade origina-se na incompreensão da diferença entre moralidade e ética, com conseqüências espirituais e sentimento e/ou PRÁTICas RELIGIOSAs, absolutamente diferentes entre si. A primeira condição é intimista, reservada, latente e exclusiva entre Deus e a criatura. A segunda é exteriorizada, teatral e predominantemente pública. E quase sempre alienada, hipócrita, como notou o próprio Jesus. (“Ao orar, não faças como os publicanos …”)

O espiritismo é filosofia e ciência com conseqüências ético-morais. Isto é, ao inteirar-se da grandeza cósmica, do perfeito funcionamento da criação à qual ele está integrado, o homem evoluído fatalmente tenderá a reverenciar a divindade suprema, criando laços fraternos com seus iguais, ligando-se ao projeto de Deus e não se religando a Ele, propriamente dito. Sempre com o consentimento da razão, segundo Kardec, e portanto, sem amarras dogmáticas, sem superstições, sem necessidade de práticas místicas.

No espiritismo, Religação = religião, é impossível, por dois motivos:

Pela etimologia das palavras. Os doutores Carlos Imbassahy (pai e filho) ensinam que as duas palavras latinas têm radicais diferentes: religo, religas, religat, religamus, religatis, religant (indicativo presente) religavi (pretérito) religatum (supino) e religare (infinitivo) Em nenhuma das formas aparece o “i” de religio ou Religi
Conceitualmente, porque só se religa o que foi desligado. E como o espiritismo não adota a teoria do pecado original, não pode crer que houve ruptura da relação homem/Deus, pelo pecado original, necessitando da figura de um “salvador” para restabelecer a ligação.
A reverência dispensa os salamaleques religiosos que o homem primitivo e imaturo, inventou para relacionar-se com Jesus e Deus. Todos os ritos, cultos e práticas místicas, derivam-se de interesses ou sentimentos de medo e subserviência, existentes na criatura ignorante da verdadeira natureza divina, que dessas coisas não necessita. Em estágios evolutivos atrasados, faz parte da psicologia humana, transformar fenômenos desconhecidos, em fenômenos sagrados ou religiosos. Por isso é tão arraigada no homem terreno, essa necessidade ritual e litúrgica. Acostumado à pompa e circunstância no trato com os poderosos da Terra e atribuindo caráter humano à divindade, imaginou ser necessário comunicar-se com ela, por essa via infantil.

Essa maneira primária de relacionar-se com Deus é que explica o fato de algumas instituições espíritas adotarem sistemas de trabalho que vão se assemelhando cada vez mais a missas e cultos repetitivos, simplórios, ingênuos, piegas, com ambientação solene e sagrada de catedrais, utilizando cantorias, prédicas de sermões de convencimento “cristão”.

Tudo muito distante de um certo “Instituto Parisiense de Pesquisas Espíritas”, criado por um senhor chamado Allan Kardec, nos idos de 1860, onde se pesquisava, se instruía e se amava.

Definitivamente, não é mesmo racional acreditar-se que Deus precise de nossas exteriorizações, ou de corporações, para sustentar a fé. Essas são coisas de política institucional humana. Só que o espírita, em geral, ainda não se deu conta disso.

* Nícia Cunha é Delegada da CEPA – Confederação Espírita Pan-Americana em Cuiabá – Mato Grosso

Originalmente publicado em: Jornal “Opinião” e Livro “O Pensamento Atual da CEPA”

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