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* 26 de junho de 2017

 

 

É possível provar a sobrevivência do ser humano após a morte? É possível provar a existência do espírito? É certo que, se os espíritos existem, eles não se apresentam a qualquer momento (graças a Deus?), nem respondem a qualquer chamado que fizermos. Se existem, se podem aparecer e se comunicar, por que simplesmente não aparecem e se comunicam? Há, entretanto, registros de diversos tipos de eventos que escapam às explicações racionais na ausência da hipótese do espírito. Como seria possível uma pessoa que nunca conheceu outra citar fatos marcantes de sua vida particular, nomes de amigos e parentes, pertences específicos, eventos corriqueiros inconfundíveis e até trejeitos? Uma resposta possível seria uma capacidade paranormal de ler a mente alheia. Mas, e quando a pessoa cujas informações são reveladas já faleceu? Se alguém lê a mente de um morto, é porque esse morto está vivo?

Dois livros oferecem elementos para pensar sobre isso: Mediunidade e Sobrevivência: um século de investigações, de Alan Gauld; e Cartas da Imortalidade: os espíritos escrevem a seus familiares, de Nilton Sousa (e espíritos diversos). O primeiro livro discute a possibilidade da existência do espírito pelas lentes dos estudos psíquicos laicos e com pretensão científica. O segundo parte da doutrina espírita kardecista e toma a existência do espírito como pressuposto, buscando oferecer evidências disso. Aquele vai na linha de Charles Xavier. Este na do Chico Xavier.

Antes de prosseguir, uma nota explicativa: este texto que ora apresentamos é uma reflexão de quem apenas começa a lidar com as questões do espírito e, portanto, não tem nenhuma pretensão de oferecer palavra mais conclusiva ou mesmo mais completa sobre o assunto.

Publicado em 1982, o livro de Gauld, presidente da Sociedade Britânica de Pesquisas Psíquicas (SPR, em inglês), se propôs a revisar e sintetizar um século de investigações com pretensões científicas a respeito de fenômenos como os que aludimos no primeiro parágrafo. O eixo da discussão desse longo período de pesquisas é a chamada “super percepção extra-sensorial”, considerada a melhor hipótese alternativa à da existência do espírito. A “super percepção extra-sensorial” (Super-PES) seria um tipo de percepção que é diferente daquelas dos nossos cinco sentidos ordinários. Seria uma capacidade psíquica, mental, telepática, por meio da qual determinadas pessoas seriam capazes de vasculhar a memória de outras e obter informações muito específicas, como apelidos, endereços e maneirismos.

Para entender melhor a hipótese da Super-PES é útil diferenciá-la da simples “percepção extra-sensorial” (PES). Esta também se refere às percepções e sensações que não seriam captadas pelos nossos 5 sentidos tradicionais, como a intuição de seguir por um caminho ou outro para desviar de um perigo, a sensação de que alguém está nos olhando do outro lado da rua, o sentimento de que um familiar nos chama ou a sensação de certeza de saber o que o nosso interlocutor está pensando. Quantas vezes eventos desse tipo realmente não ocorreram conosco? Quantas vezes não estamos pensando numa pessoa e recebemos uma ligação ou mensagem dela naquele instante? Seria uma coincidência ao acaso ou uma percepção extra-sensorial?

Essas percepções extra-sensoriais, que são muito comuns e que dificilmente alguma pessoa diria que nunca as experimentou, diferem da Super-PES por causa da escala, da magnitude, do detalhamento. No caso da hipótese da Super-PES, por motivos que a ciência ainda também não forneceu explicações mais sólidas (até onde sei, e sei bem pouco...), algumas pessoas conseguiriam captar pormenores da vida de outras pessoas... falecidas; mortas. De que maneira? Pelo que pude entender do livro de Alan Gauld, e de forma bem sintética, tais indivíduos fariam isso de duas maneiras principais: 1) teriam a capacidade mental de visualizar/enxergar, à distância, fotos, notícias, livros cartoriais, diários, blogs, páginas de facebook, twitter etc., contendo informações do defunto; 2) Poderiam vasculhar a mente de pessoas que conheceram o falecido, colhendo no cérebro dos vivos informações sobre a vida dos que se foram.

Ilustremos essas proposições: Xavier vasculha a mente de Logan e encontra informações sobre Victor, irmão falecido de Logan. A partir das lembranças de Logan, Xavier diria: seu irmão Victor era católico e gostava de pudim. Portanto, esse Xavier estaria mais para o famoso professor Charles Xavier, mutante dos X-Men, e menos para o Chico, médium brasileiro. Dissemos também que pessoas dotadas de Super-PES poderiam ser portadoras de uma potente clarividência, podendo visualizar objetos sem limite de distância. Xavier, ao estilo do prof. X-Men, poderia visualizar o registro de nascimento de Victor num determinado cartório e dizer corretamente a Logan: seu irmão nasceu no Canadá. Até onde informado em Mediunidade e Sobrevivência, a Super-PES é considerada apenas uma hipótese pelos estudos científicos do psiquismo, mas é a principal alternativa à hipótese da existência do espírito. Gauld aponta no livro as dificuldades de se comprovar cientificamente a hipótese da Super-PES. Abordá-las aqui tornaria este texto despropositadamente complexo e longo.

Já o livro Cartas da imortalidade busca oferecer evidências acerca da existência do espírito. Trata-se de um livro psicografado pelo médium Nilton Sousa, na instituição espírita Lar de Clara, localizada em Caucaia, Ceará. Em sessões públicas, realizadas às claras e num pátio aberto, o médium transcreve para o papel mensagens destinadas a pessoas que estão na plateia. Imediatamente após o recebimento de todas as mensagens, o médium lê as cartas em público e as entrega aos seus destinatários, que às vezes se revelam pela emoção de ouvir seu nome ou apelido carinhoso citado, ou por reconhecer as particularidades de um traumático evento familiar. Tive a oportunidade de acompanhar uma sessão em julho de 2016, ocasião na qual comprei o livro. Ali, a função de Nilton se assemelharia à de Xavier, o Chico. Ou seja, ele afirma estar recebendo informações de espíritos de pessoas falecidas, e não lendo mentes encarnadas ou buscando informações em redes sociais por clarividência.

O livro Cartas traz comunicações de 23 espíritos, algumas delas com mais de uma carta. São espíritos de crianças, jovens, adultos e idosos que enviam notícias a parentes e amigos. Enviam consolo, esperança, mas também pedidos de desculpas e de pensamento positivo. Detalham circunstâncias de suas mortes e momentos singulares de alegria quando encarnados. Para nos atermos às nossas questões iniciais, há três tipos principais de evidências que sugerem a existência do espírito: 1) Informações objetivas que são desconhecidas do médium e que são posteriormente confirmadas pelos destinatários; 2) Estilos literários pessoais, ou seja, maneirismos, trejeitos, brincadeiras, bordões, e outras formas peculiares de se expressar; 3) Estilo técnico na forma da escrita, isto é, fortes semelhanças entre alguns traços e assinaturas grafados pelo médium em relação àqueles que os falecidos deixaram. Quanto aos dois primeiros tipos de evidência, é surpreendente ler as informações específicas nas cartas e, ao seu término, os comentários dos destinatários, que apontam as informações que foram passadas corretamente e que o médium não teria como saber de antemão.

Seriam esses conjuntos fortes evidências em prol da hipótese da existência do espírito? Ou a Super-PES faz mais sentido? Nilton Sousa estaria lendo mentes dos parentes vivos dos falecidos e, a partir delas, criando cartas como se fossem de autoria dos próprios falecidos para aliviar as dores dos vivos? Ou seriam os espíritos dos falecidos que estariam a lhe ditar as cartas? O que parece mais verídico: a mediunidade espiritual, de tipo Chico Xavier, ou o super poder mental, ao estilo do prof. Charles Xavier? Cada um que tire sua conclusão. Ou que no mínimo desconfie.

Bibliografia
GAULD, Alan. Mediunidade e Sobrevivência - Um Século de Investigações. São Paulo: Pensamento, 1986
SOUSA, Nilton. Cartas da imortalidade: os espíritos escrevem aos seus familiares. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2014.

*Thiago Lima da Silva. 
Professor de Relações Internacionais. Membro da ASSEPE.

 

Acho importante quando se fala do médium e da mediunidade como algo que acontece na sutilidade das relações humanas e na experimentalidade dos métodos científicos.

O médium, este desconhecido de muitos, ignorado e mal julgado, sofre inúmeras conseqüências pelo fato de possuir relações mais estreitas com aqueles que já partiram para o mundo dos espíritos. Muitos, é verdade, não conseguiram realizar esta “viagem” com a tranqüilidade e a consciência da existência da vida pós-morte e continuam a sofrer, com tal realidade, que se percebem vivos e não são percebidos.

Sabiamente, o mestre lionês Allan Kardec, conseguiu reunir fatos e percepções de fatos num ensaio grandioso da vida espiritual e das relações estabelecidas entre os vivos e os ditos “mortos”. Neste sentido, o papel do médium foi e é de grande importância para a efetivação de tudo o que já conseguimos elaborar até aqui em matéria de espiritismo e de espiritualidade.

No dizer de Allan Kardec, em “O Livro dos Médiuns”: “Toda pessoa que sente, em grau qualquer, a influência dos Espíritos, por isso mesmo, é médium”. Esta frase por si só possibilita discussões duradouras no que se refere ao fato e às percepções de fatos espirituais mediúnicos. Também como fala Ademar Arthur Chioro dos Reis, em seu livro “Mecanismos da Mediunidade – Processo de Comunicação Mediúnica”:

“Muito mais que mediação, intermediação, interpretação ou filtragem, como freqüentemente é definida a mediunidade, trata-se de um fenômeno extremamente participativo, cujo mecanismo tem por base um processo que é mental e somático, resultando numa comunicação mente a mente, onde há sempre interpretações de caráter pessoal que, a dois, devem ser fundidas numa idéia única, uma única resposta. A mente está na base de toda a fenomenologia mediúnica”.

As pesquisas, estudos e experiências pessoais realizadas em torno da mediunidade são de capital importância para o desenvolvimento da Doutrina Espírita e para ampliação da consciência humana no que se refere à vida após a morte e suas conseqüências para o espírito. E dentro de toda a complexidade existente nos processos de comunicação mediúnica está o médium. Uma pessoa limitada pela realidade do mundo que a cerca, cheia de conflitos e possibilidades, portadora de uma herança milenar que carrega através dos tempos, buscando um crescimento pessoal, psicológico adequado e, ainda assim, sendo meio e fim daqueles que desejam clarificar a realidade da vida, depois da vida física.

Realmente não é fácil ser médium, nem, muito menos, exercer a mediunidade com a maturidade que o processo exige. Mas todo investimento com vontade e desejo de crescimento pessoal, por parte daquele que se diz médium e que vivencia fenômenos espirituais mediúnicos, é uma forma de criar em torno de si mesmo uma atmosfera de experiências que possibilita uma maior aplicação das suas reais potencialidades de comunicação e de ajustamento psicoespiritual.

“Fora da Caridade não há salvação”. Esse parece ser o lema do espírita. Parece apenas. Será que temos a noção do que realmente seja caridade? Pelo pouco que temos percebido dos textos, artigos, palestras, e, principalmente da conduta diante de fatos sociais e de relacionamento interpessoal entre os espíritas, temos pouco o que dar exemplo de caridade.


Kardec na Revista Espírita, de dezembro de 1968, diz:


“A caridade é a alma do Espiritismo: ela resume todos os deveres do homem para consigo mesmo e para com os seus semelhantes; eis porque se pode dizer que não há verdadeiro Espírita sem caridade”.


Kardec alerta para a necessidade de autotransformação e para uma transformação social mais ampla. O verdadeiro espírita é aquele que todos os dias tenta melhorar-se, não é aquele que se diz e que os outros dizem que é um santo, mas é aquele que se esforça para melhorar-se. Cada pessoa é que verdadeiramente sabe de sua própria vida. Não são julgamentos alheios que fazem uma pessoa melhor ou pior, mas as suas reais intenções e ações. Não é uma questão de os fins justificarem os meios ou não, mas uma relação de coerência entre as ações e as intenções.


A caridade está associada ao outro, é uma relação humana.


Ficarei, no momento, com a questão social. Existe um grande debate sobre caridade e assistencialismo. Existe caridade social sem assistencialismo? Se existe, qual a fronteira entre a caridade e o assistencialismo?


Vamos a alguns pontos antes de voltarmos a essas perguntas e a uma maior reflexão. O assistencialismo é uma ferramenta de manutenção do status quo. É a partir dela que a classe dominante mantém a pobreza e mantém os pobres quietos, sem se rebelarem contra a situação social. O assistencialismo é paternalista, no sentido que usa dos bens materiais doados para dizer: “somos bons, queremos o seu bem”, “temos piedade de sua situação, tome um prato de sopa”. Talvez não digam essas palavras, para não parecer falso, mas são as expressões embutidas nas ações. É através do assistencialismo que não se investe em educação, saúde, melhoria na infra-estrutura, enfim, é dando o mínimo necessário para sobreviver e “manter paz”.


Voltando as questões postas anteriormente, existe sim, caridade social sem assistencialismo. Penso que, a caridade social existe quando é dada não somente a comida ou a roupa necessária para o frio e a fome, mas quando, a partir daí, se tenha uma responsabilidade humana (social) diante do outro. Não é apenas dar, mas educar. Não se trata apenas de “não dar o peixe, mas ensinar a pescar”, mas de conscientizar de sua situação social e humana. Educar para não ter apenas conquistas materiais, mas educar para ter uma conduta ética, consciente, que trabalhe para suas conquistas, mas que trabalhe também para conscientizar-se e conscientizar outros de sua situação. Deixar de ser produto do meio e passar a ser agente de mudança do meio. E só é caridade, se todas essas ações forem feitas sem interesses pessoais. Caridade anda junto com o desinteresse de ganhos pessoais, seja no campo material ou não. Do contrário não seria caridade. A fronteira entre o assistencialismo e a caridade está no bom senso. Ninguém deve negar assistência a quem precisa, mas a assistência não deve se transformar em comodismo. Não é uma fronteira definida em termos de tempo e quantidade, mas uma questão de ver se realmente precisa de assistência ou se já pode galgar outros passos em busca de sua consciência e responsabilidade diante do mundo.


Infelizmente, o Movimento Espírita, em sua grande maioria, pratica o assistencialismo com a maquiagem de caridade. As práticas dentro do centro espírita são de dar alimento e de doutrinar as pessoas “espiriticamente” para serem pessoas com “moral elevada”. No máximo, alguns centros oferecem cursos profissionalizantes. Mas será que é só dar o curso e pronto? O SENAI, O SESC e tantos outros serviços e ONG’s oferecem cursos profissionalizantes, mas nenhum deles conscientiza da situação social que vive o país. Essa prática espírita é dogmatizante, pois o que recebe ajuda encontra a mesma situação numa igreja perto da casa espírita, com a mesma proposta. Assim os espíritas igualam o Centro Espírita a uma Igreja de qualquer religião, que dá o pão e oferece os “ensinamentos de amor”. Está na hora do Movimento Espírita acordar para o seu real papel diante da sociedade, que é imenso. Vai do pão à conscientização, do recebimento ao amor, não da espiritização. Não é de espíritas que a sociedade precisa para melhorar, mas de pessoas conscientes de seu papel diante de si mesmo, do outro e do mundo, sendo espírita ou não.

A Psicologia possui várias correntes de estudos e pesquisas; várias teorias e teóricos que fazem da Psicologia uma ciência abrangente e generalista. Mas ao mesmo tempo, ela se torna especialista porque seus estudos dizem respeito a questões especificas como motivação, aprendizagem, relações inter e intrapessoais, etc. Dentro desta perspectiva, muitas são as escolas que influenciam o crescimento da Psicologia.

A primeira, é conhecida como Behaviorismo (Comportamentalismo), que procura estudar o comportamento e seus processos condicionantes; dá uma ênfase às experimentações comportamentais.

A segunda é a Psicanálise, que focaliza seus estudos em torno das questões do inconsciente, das instâncias psíquicas do ID, EGO e SUPEREGO, em que cada uma assume uma função específica na formação e no desenvolvimento da personalidade.

A terceira é a escola Humanista-Existencial. De acordo com esta linha de estudos, o ser humano assume uma maior responsabilidade pela sua vida, a partir de uma ênfase na experiência consciente, na valorização pessoal saudável. A pessoa é vista como potencialmente capaz, auto-realizadora, autodirigida e criativa, assumindo uma tendência atualizante no processo de desenvolvimento da personalidade e de suas relações com as pessoas e com o meio.

Uma quarta escola pode ser considerada, apesar de seu recente desenvolvimento no meio acadêmico. É a Transpessoal, surgida do meio da psicologia Humanista. Esta abordagem traz um aspecto esquecido pelas ciências em geral: a transcendência do ser. No dizer de Antonio Carlos Fragoso Guimarães, poderíamos definir a abordagem Transpessoal nos seguintes termos:

“De uma forma mais ou menos resumida, pode-se definir a Psicologia Transpessoal como uma abordagem que tem como principal objetivo tratar o homem como um ser integral, ou seja, um ente complexo que engloba aspectos biológicos, mentais, sociais, ecológicos e, muito em especial, espirituais, o que amplia grandemente o atual campo da pesquisa em Psicologia”.

A concepção Transpessoal admite claramente que existem outros estados de consciência que vão além dos estados tradicionais de sono, sono profundo, vigília, delírio e outros. Ela admite que existem estados supraconscientes “cuja promoção da saúde e crescimento superariam em muito as do estado normal de vigília e as derivadas da análise das faixasinfra-conscientes descobertas por Freud” (Boainain Júnior, 1996, p. 30).

Esta abordagem levanta a dimensão do Espírito no contexto da ciência. Por ser considerada muito abstrata e sem predição científica, seu estudo nas academias ainda é visto com certo descrédito. A transpessoalidade pretende tratar com seriedade as questões que abordam as experiências de quase-morte, regressão de memória e a vidas passadas, fatos paranormais e mediúnicos, bem como outros temas correlatos. Este caminho proporciona uma integração com os conhecimentos filosóficos e religiosos espalhados pelo mundo.

Acredito que esta abordagem, como um campo de pesquisa e estudo, ganhará força e adeptos a medida que rompermos com preconceitos históricos e pessoais relacionados, especialmente, aos fatos ditos espirituais.

A transpessoalidade do ser também toca na existência de vida além da vida, onde o Espiritismo, considerado ciência e filosofia, de conseqüências morais para uns e religião para outros, estuda e pesquisa há quase 150 anos. Desta forma, é necessário que os espíritas convictos possamos acompanhar os trabalhos produzidos neste campo da ciência psicológica, bem como realizar e incentivar avanços na dimensão cientifica da Doutrina Espírita.

Muito se debate se o espiritismo é uma religião, se é uma ciência, se é uma filosofia, uma ciência-filosófica com fins morais, uma ciência-filosofia-religião, enfim, são tantas denominações que muitos falam, teorizam, debatem, até brigam, mas não chegam a conclusão alguma.

O mais importante, a meu ver, não é a definição que dou à Doutrina Espírita, mas que perspectiva tenho dela. Não é uma simples questão de ponto de vista. Ponto de vista, opinião, teorizações, muitas vezes ficam no discurso, mas na prática, na vivência, na experiência íntima é diferente. A questão da perspectiva é diferente, tem relação com a percepção, não somente a sensorial e extra-sensorial, mas uma percepção consciencial que vai além de uma simples interpretação do que é estimulado. Perspectiva está intimamente ligada à atitude, ação, pensamento. Cada perspectiva tem suas vantagens e desvantagens de uma outra perspectiva.

Algumas pessoas têm da Doutrina Espírita uma perspectiva religiosa, então podemos compará-la com outras religiões, seja no corpo litúrgico, doutrinário ou dogmático. Nessa perspectiva, algumas características religiosas estão mais evidentes que outras. Sendo uma religião, não posso deixar de ter rituais, dogmas, hierarquias sacerdotais, etc. Os poderes são gerados, de forma não-democrática, em um “consenso” que agrada poucos e desagrada muitos. Normalmente nessa perspectiva os laços fraternais aparentemente são mais estreitos, onde cada um se vê como um irmão, como alguém que comunga com as mesmas opiniões. A experiência espiritual é que define a fé e a sua qualidade, como também está, geralmente, acima da razão e da lógica, ou seja, leva-se mais em conta o fenômeno que a sua utilização prática. O estudo crítico fica em segundo plano e, quando existe é em virtude de uma compreensão da “verdade”. Para essa perspectiva pode-se incorrer em achar que o espiritismo tem a chave para todas as respostas. O espiritismo é “A Verdade” e as outras religiões ainda não chegaram ao patamar do espiritismo. Se não tem a resposta, é porque “ainda não alcançamos” a evolução suficiente para entender a resposta. A assistência social é algo imprescindível.

Numa perspectiva científica, exageradamente científica, o que fica mais evidente é a razão, as teorizações, o estudo, a refutação de algo sem explicação lógica. Nesse cientificismo exagerado, a prática social é deixada de lado. Não se dá assistência porque é contra o assistencialismo, acaba por não poder fazer o “trabalho que deveria ser feito”, por não ter condições de fazer um “trabalho bem feito”, então não faz nada. Ainda, nessa perspectiva, tudo deve ter uma utilização prática, não adianta apenas o fenômeno, mas o porquê, para que, e como ocorreu, numa objetividade exagerada que se perde diante da imensa subjetividade humana e espiritual. As hierarquias não são sacerdotais, e quando há, geralmente é em função da inteligência, da produção bibliográfica. Também pode-se incorrer na não-democracia. Se exagerar na racionalização pode-se ficar meio amargo, meio desumano, os laços fraternais não são mais prioridades, mas o aprender, produzir, contestar.

Numa perspectiva filosófica, a especulação está em primeiro lugar. Geralmente fala-se muito bem, tem muita retórica, muito embasamento teórico, é cheio de perguntas que não se tem resposta alcançável ainda, e gosta de colocar os que têm a perspectiva religiosa em uma situação embaraçosa por não ter a resposta. Sabe que a Doutrina Espírita não responde a tudo, mas gosta de questionar os que assim pensam (perspectiva religiosa). Tem pouca prática e muito estudo. Não é do trabalho braçal, é do trabalho intelectual, por achar o mais importante. Geralmente tem respostas e gosta de lançar perguntas ditas polêmicas para os que assim acham.

A partir de uma perspectiva de Ciência, Filosofia e Religião, parece ser uma visão completa, acabada da Doutrina Espírita, mas, da mesma forma que as perspectivas anteriores, pode-se achar que a Doutrina Espírita é a verdade absoluta, por abarcar as três mais importantes áreas do conhecimento humano. Como também, pode-se achar que a Filosofia indaga, a ciência responde e a religião consola. Ou seja, é “completa”, não precisa de mais nada, já que temos as perguntas que necessitamos, as respostas a essas perguntas, e ainda, o consolo para as nossas dores. Se assim fosse, não teria um espírita sofredor. Alguns dizem: “se não entendeu, é porque você ainda não alcançou”. Lembra o que dizem outras pessoas de algumas religiões: “se não conseguiu é porque a sua fé é pouca”. Uma perspectiva completa da Doutrina Espírita não deixa margens para novos aprendizados, e, ainda, leva-nos a ficar ortodoxos, radicais, donos da verdade, já que ela está aqui, ao meu alcance e a tenho na estante da sala.

Ciência, Filosofia e Moral. Assim definem muitos, por não gostarem da palavra religião, ou de não comparar a Doutrina Espírita com outras religiões. Muitas vezes, ficam apenas na escrita, nas palavras, nas teorias, pois na prática, é como se fosse uma religião, perspectiva muito parecida com a da ciência-filosofia-religião, com nomenclatura diferente, apenas. São raros os que vêem diferente.

Então, quanto às perspectivas, volto a insistir que é a partir delas que vivemos. A nossa identidade é formada por uma série de fatores físicos, psíquicos, espirituais e sociais que moldam a nossa personalidade. Nossa perspectiva da profissão, da família, dos amigos, do trânsito, de saúde, etc. Não só absorvemos essas experiências, mas as expressamos de acordo com nossa perspectiva de vida, de acordo com o conjunto de fatores que compõem a nossa existência. Conseqüentemente, nossa atitude perante a Doutrina Espírita será de acordo com a nossa perspectiva dela. Entenda-se atitude como um conjunto de afetos, crenças, intenções e comportamento.

Particularmente, prefiro ter uma perspectiva da Doutrina Espírita como um campo do conhecimento humano (e espiritual), ou melhor, o campo do conhecimento mais abrangente, que mais traz elementos que dão sentido as minhas buscas. Isso não quer dizer que ela preencherá as buscas de todos. Seria pensar como os que a acham a verdade absoluta ou que eu queira moldá-la à minha perspectiva de mundo. O caminho é o contrário. Não a moldemos, mas absorvamo-la como uma criança que respira o oxigênio pela primeira vez ao nascer: o ambiente novo incomoda, mas está pronta para o novo.

Partindo de uma abordagem sociológica, saindo do individual para o coletivo, apesar de não aprofundarmos nesse assunto agora, podemos indagar: qual a perspectiva que o Movimento Espírita Brasileiro tem da Doutrina Espírita? O espiritismo será aquilo que os homens fizerem dele, já alertou sabiamente Léon Denis. Não adianta muito o que foi escrito, mas o que fazemos dela e as atitudes que temos diante do que é apresentado pela Doutrina Espírita. Quais são minhas crenças, meu afeto, minhas intenções e expressões diante desse imenso território intelecto-moral que se me apresenta? O quanto estou aberto para adentrar em um novo campo? O quanto estou disposto a encarar as perguntas que me chegam à consciência quando mergulhado estou no espiritismo?

Há a perspectiva mais correta da Doutrina Espírita? Sim e Não. Porque mais importante que conceituar, apesar de ser imprescindível saber o que é e a que se propõe, é o que eu faço a partir dela, qual é minha atitude perante o mundo? Que contribuição posso dar a partir desses conhecimentos? Como vou crescer, progredir?

— Depende da minha perspectiva!

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