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Decidiram, enfim, se encontrar. Fazia uns seis meses que eles se comunicavam pela Internet. Ele foi apresentado a ela por um amigo da irmã dela. Coisas dessas comunidades virtuais...

Ele aceitou o convite dela sem saber de quem se tratava. Janaína... Era só o que sabia, porque nem foto ela usava nas configurações do perfil. Nem ele. Ele... Nelson... Era o que Janaína sabia.

Tá, tudo bem, sabia dos gostos pessoais dele, nome completo, que era solteiro. O mesmo que Nelson sabia a respeito dela.

Então marcaram um encontro. Seria a primeira vez que eles conversariam cara a cara sobre tantas coisas que falavam na Internet.

Essa rede mundial de computadores!!!

Criaram coragem e decidiram ir a um ponto da cidade de gosto comum dos dois – o cinema do shopping. Escolheram o filme que ambos esperavam ver desde que tinha sido anunciada a estréia.

Tudo marcado, fechado, prego batido em ponta virada!

E, mesmo assim, não quiseram mandar a foto um para o outro! Ele pediu, muitas vezes, para ela enviar uma foto. Chegou a teclar com a irmã dela para conseguir uma imagem dessa garota que já rondava os sonhos dele – e sem rosto! Mas... Nada feito! A irmã era amiga fiel dela. E, Janaína, sonhdora e ansiosa, preferia suspirar com a imagem que fazia dele em sua mente.

Chega o dia. Ele passou o domingo planejando como chegaria a ela. Lembrou que combinaram de usar alguma coisa que os identificasse no local do encontro (e isso ainda existe?!?!?!). Nélson deixou acertado que usaria uma calça xadrez. E Janaína uma saia longa com um lenço amarrado na cintura. Tudo certo!

Faltava uma hora para o encontro e ele já estava lá, escorado na coluna que fica na entrada do cinema. Não perderia por nada nesse mundo a chegada dela. Janaína, mais ansiosa, chegara no shopping ao meio dia! Fez um lanche pequeno – o máximo que seu estômago permitiu diante da ansiedade que a dominava desde a sexta-feira.

Como gentil cavalheiro (que ainda sobrevive nesse mundo) comprou as entradas para a sessão das 17h45 – tempo suficiente para se reconhecerem, identificarem-se, cumprimentarem-se e conversar por, pelo menos, meia hora. De dez em dez minutos espiava o relógio. Comprou umas pastilhas para passar o tempo.

Faltavam vinte minutos para a hora marcada!

Janaína não suportava a hipótese de um chá de cadeira. Foi olhar as lojas - o que teria de novidade naquela lojinha de produtos esotéricos?

Assim, passou o tempo.

Janaína correu para o cinema. Quando estava subindo as escadas lembrou que não podia chegar esbaforida. Podia dar na cara! Ela perpassou o olhar pela multidão aglomerada para entrar na última sessão da tarde. Eis que avista a figura magricela e comprida escorada na pilastra perto da fila que entrava para a sessão das 17h... Com uma calça xadrez! E camisa abotoada até o pescoço, mangas arregaçadas até os cotovelos, cabelo zero e uma barbicha!... Sapatos mocassins de franjinha e pulseira de ouro! Não, ela não acreditava que o deus que visitava seus sonhos acordada se resumia àquela aparência.

De tão desapontada, caiu imóvel no sofá da entrada do cinema. Deu um suspiro e pensou que podia, depois, dar a desculpa de que não pode ir porque pegou uma gripe horrível, que ela havia se sentido mal desde a sexta e não disse nada porque não queria frustrar os planos dos dois.

Fazer, o que, né?! Decidiu não perder a saída e comprou a entrada para o filme da próxima sessão na sala 4.

Nélson já estava suando frio, quase tendo um infarto quando viu uma garota subir pela escada rolante... Linda, cabelos negros, longos e encaracolados vestida com uma saia longa e um lenço amarrado na cintura! Só podia ser ela. Ele ficou tão inebriado com a beleza daquela garota que congelou. Extasiado, mil coisas passavam pela mente. O que diria a ela – linda, maravilhosa! Quando pensava em tomar uma atitude as pernas grudavam no chão. Ele não merecia tudo aquilo. E ficou observando o jeito descomprometido dela olhar para a lista de filmes em cartaz. Não parecia que o esperava ansiosa... Decepcionado, permaneceu lá, imóvel. Depois ele enviaria uma mensagem dizendo que não pode ir porque ficou doente e que mandou um e-mail e torceu para que ela lesse a tempo. Ficou segurando o queixo, embevecido com a beleza dela, sentado na poltrona próxima a entrada das salas de exibição. A hora da sessão da sala 4 se aproximava. Nélson não quis perder as entradas... nem o dia. Um cineminha bem que podia melhorar o seu astral.

A fila se formava, pessoas e mais pessoas se avolumavam no hall do cinema para assistir o filme da sessão das 17h45. Era um trailler de aventura, com um romance de pano de fundo, que estava sendo anunciado desde o início do ano. Imperdível para os cinéfilos de plantão.

Vamos encontrar duas personalidades cabisbaixas na fila. Uma garota, que aparentava não ter mais de 20 anos, cabelos longos, lisos, tênis prata. Um rapaz, que devia ter 25 anos no máximo, com uma camisa xadrez...

... Ardilosos e loucos para saber a imagem do outro sem serem reconhecidos, Nélson e Janaína não cumpririam o acordo. Janaína, numa conversa com a irmã, decidiu que usaria calça jeans e baby-look pink com o tênis prata. Nélson, menos radical, resolveu usar uma camisa xadrez ao invés das calças.

Ai, ai... A fila anda, o momento chega, e a gente revê as oportunidades...

Nélson nota que sua vizinha de poltrona está muita calada e um tanto quanto... digamos... decepcionada. Era só o que faltava, outra pessoa no mesmo estado de espírito que ele. Bem, era preciso fazer algo para sair daquele humor. Perguntou a ela se estava contrariada no cinema e disse que não podia ficar daquele jeito com a expectativa de um dos melhores filmes do ano. Ela sorriu e disse que estava esperando alguém e esse alguém que ela esperava não apareceu.

Perguntou o nome dele — Nélson. Perguntou o dela – Janaína. Olharam-se de baixo a cima e riram... Muito!

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