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— Olá!
— ...?

— Olá, você do espelho. Afinal quem é você que só repete o que eu digo?
— Ora, então você não sabe? Eu sou a sua imagem refletida no lado de cá. E eu é que sou o verdadeiro.

— Pára com isso! Como você pode ser o verdadeiro, se você é apenas a minha imagem.
— Aí é que está o erro. Eu não sou “apenas” a sua imagem. Eu sou a imagem que você vê. Portanto eu é que sou a sua verdadeira identidade. Você é apenas o que os outros vêem e o que os outros vêem não é real. É aparente.

— Ah! Peguei você! Você também é aparente. É o reflexo da luz que incide sobre mim e se reflete no espelho.
— Não queira usar subterfúgios para fazer valer seu ponto de vista. Você sabe muito bem que por trás da minha aparência existe toda uma personalidade com certo grau de conhecimento e senso moral, assim como você não é apenas um corpo de carne e osso. Escondida nessa sua forma exterior existe um indivíduo intangível que raciocina e que está pensando neste exato momento que deve ser meio maluco em estar conversando com a sua imagem no espelho.

— Você pensa que é muito sabido, né? Imagina que eu vou aceitar que você é o “eu” verdadeiro! Neste caso, eu lhe daria razão e diria que eu estou mesmo ficando doido. Eu é que tenho o comando da situação, eu é que raciocino e uso o meu livre arbítrio para tomar as decisões. Agora mesmo, se eu decidir posso fazer você desaparecer. Então você nem existe.
— Engano seu. Quem não existe é você. Você é uma aparência e tem uma personalidade intermitente e efêmera porque é o que os outros pensam de você. Pense bem. Desde a sua certidão de nascimento até, quando chegar a hora, a certidão de óbito, são expedidos por outras pessoas e não por você mesmo. Quando foi que no seu boletim escolar ou nos históricos dos cursos universitários apareceram a sua própria avaliação? Portanto, você é o que os outros dizem que é. Não tem existência própria.

— Você está me deixando irritado com essa história. Olha que eu saio da frente do espelho e você desaparece!
— HAHAHA! Pois então saia. Não seja ingênuo! Você estaria apenas ignorando a verdade. Você não percebe que eu até posso desaparecer, mas não deixo de existir? Da mesma forma que você pode desaparecer sem deixar de existir, eu também continuo existindo ainda que você não tenha recursos para me ver.

— Pronto! Você se contradisse. Ainda agora você disse que eu não existo e agora diz o contrário.
— Não se faça de idiota! Evidente que aqui entra a conceituação do que é existir. Como você está no conjunto dos irreais, então eu digo que você não existe. Tem existência nos irreais. Na matemática é possível realizar operações com elementos imaginários, mas na vida o irreal não tem existência própria.

— Como eu posso não ter existência própria se eu penso. Lembra da frase “Penso, logo existo”?
— Diga assim: “Penso, logo você existe”. Eu é que existo e sou real. Você não passa de simples produto do meio. Mesmo que você parasse de pensar eu não deixaria de existir, ainda que parecesse inanimado.

— Sendo assim, então você terá que concordar que ninguém existe, porque todo mundo é para o mundo exterior aquilo que vêem nele.
— Exatamente! Na realidade cada um é aquilo que pensa de si. Desde que conheça a si mesmo, senão será apenas um hipócrita.

— Como eu nem me conheço direito, então você é uma farsa.
— É. Mas eu existo. Não tenho culpa se você não se esforça para conhecer seus mais profundos sentimentos, sua índole, suas virtudes,... Você sabe das virtudes porque lhe faz bem apreciá-las e os outros as salientam sempre que possível, satisfazendo seu ego. Mas eu conheço muitos dos seus defeitos. Quer que os enumere?

— Ora! Vá plantar batatas!
— Ah! Viu como você é parcial? Tenta esconder seus defeitos de si mesmo e se irrita com a possibilidade de vê-los a descoberto. Desse jeito nosso planeta progride muito mais lentamente porque fica dependente do mundo das idéias para que cada um apareça tal como é, se envergonhando das suas fraquezas e se esforçando mais para corrigir os defeitos.

— ... e o que você quer que eu faça?
— Simples! Converse mais comigo e não tema o que tenho para lhe dizer. Baseado no que eu disser você pode tomar providências para não passar vergonha mais tarde. Você pode e deve conversar com todo mundo, mas não esqueça que só na conversa comigo é que você pode sintetizar todas as informações recebidas. Como você não é real eu é que lhe direi o que fazer.

— Huuummm! Que doideira! Era só o que me faltava. Agora tenho que confabular com você para determinar os rumos da minha vida? Onde está o direito de autodeterminação? E o meu livre-arbítrio, que fim levou? E os direitos humanos? Onde está a Lei Divina que me deixa a mercê de um punhado de fótons?
— Cuidado com o que você diz sem pensar, porque vou lhe cobrar cada idéia fajuta que lançar. Você está fingindo não saber que não sou apenas um punhado de fótons. Consultar-me é a única atitude que preserva a sua liberdade. Do contrário, fará sempre o que os outros determinarem.

— Então fique aí com a sua toda poderosa racionalidade que eu vou cuidar da minha vida. Tenho mais que fazer do que ficar dialogando com a minha imagem no espelho, ainda mais quando ela acha que é dona do meu destino.
— Isso! Vá. Você tem tarefas a cumprir para se manter no mundo aparente. Eu estarei sempre aqui, disposto a dialogar e lhe mostrar alternativas. Mais cedo ou mais tarde você criará coragem de me questionar sobre todas as coisas e compreenderá o que é a verdadeira liberdade. Então eu e você seremos um. — Sem laivos de vaidade ou orgulho e sem comparação com ditos antigos, você só atingirá dimensões superiores através de mim.

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