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Nós que já passamos do meio século de vida, experienciamos um período na história recente do Brasil em que se olhava atravessado para quem se dissesse “progressista”. Era logo tachado de “subversivo”, o que, de certa forma, não deixava de ser verdade, pois o país, apesar de passar por um período de estabilidade da economia e das instituições nacionais, apoiava-se em estruturas antigas que privilegiavam as oligarquias em detrimento da maioria esmagadora da população. Era a força do capital sufocando o trabalho, impondo-lhe a subserviência. Mas o tiro saiu pela culatra, pois com a explosão demográfica a situação ficou insustentável e o progressismo ganhou corpo, coadjuvado pelo livre-pensar e o pluralismo, resultantes da sede de democracia.

Progressismo não pressupõe desprezo ao que está constituído. Ao contrário, para fazer jus às transformações, será sempre necessário partir da análise de uma realidade palpável, que, por melhor que seja, deverá passar por constantes reavaliações, apoiando-se no princípio de que nunca se atinge a perfeição e a renovação e o melhoramento são infinitos.

Liberdade para ir e vir, para realizar, para protestar, para divulgar, para pensar... São condições que todo o ser humano almeja para si, mas nem todas são acessíveis a todos. A única cujo exercício ninguém pode nos limitar é a liberdade de pensar. Portanto, numa primeira avaliação, quando se fala em livre-pensar, conforme tem aparecido em algumas análises, se cometeria uma redundância porque todo o pensamento forçosamente seria livre. Como o cerceamento da liberdade de pensar não pode ser imposto por terceiros poderíamos concluir que todos somos livre-pensadores.

Mas, se por um lado ninguém pode ter o domínio absoluto sobre o pensamento de terceiro, por outro, cada indivíduo, sendo senhor de si para pensar, pode se impor clausura mental e se recusar ao uso do raciocínio, preferindo aceitar sem reflexão as idéias prontas e acabadas, como se o universo do pensamento não fosse dinâmico.

Livre-pensar não é apenas pensar. Livre-pensar é pensar com isenção, sem os condicionamentos impostos pelo tradicional ou por qualquer tipo de dogma. O livre-pensador desenvolve o seu próprio raciocínio, calcado na própria capacidade intelectual e, portanto, deve ter consciência das suas limitações, como também de que o saber é progressivo, sendo natural apoiar-se nas mais diversas fontes, mas nunca tê-las como infalíveis.

O livre-pensador é intelectualmente honesto e não se recusa a analisar uma idéia por mais estranha que lhe possa parecer. Não admite como verdadeiras teses propostas apenas pelo fato de provirem das mais famosas fontes nem tê-las como falsas apenas por terem origem desconhecida. Poderá curvar-se ante as decisões unânimes, mas jamais se deixará convencer apenas pela unanimidade.

Todos somos reféns do sincretismo filosófico, religioso ou científico, como resultado de um processo dialético interminável, mas o livre-pensador rompe paradigmas, buscando sempre alternativas possíveis que o levem a novos caminhos com horizontes cada vez mais distantes. Ele é um progressista por excelência.

Progressista e livre-pensador jamais poderia deixar de ser pluralista, sob pena de tornar-se incoerente. Isto não significa, entretanto, a assimilação de idéias e práticas contraditórias, em conflito com seus princípios, mas sim a defesa da respeitabilidade mútua e às diversas concepções filosóficas, o que pressupõe a irrestrita convivência com ideais diferentes, aceitando associações que privilegiem um consenso mínimo.

O consenso mínimo em Espiritismo supõe-se que sejam os princípios básicos constantes da obra fundamental elaborada por Allan Kardec. Mas ainda deve-se levar em conta a vocação do grupo, que poderá estender tal consenso a outras particularidades próprias e relevantes, em conformidade com pontos de vista que poderão não ser agradáveis à parcela considerável do Movimento Espírita. Ainda assim, tais particularidades em ambiente espírita pluralista, livre-pensador e progressista, não serão motivos de dissensão, nem de pugnas intermináveis que dilaceram as estruturas de qualquer organização.

O espírita progressista, livre-pensador e pluralista tem em Allan Kardec uma referência significativa, uma mente brilhante e de bom senso incontestável, mas sem considerá-lo infalível. O Livro dos Espíritos sempre é considerado com o peso exato de um livro escrito num contexto próprio para o seu tempo e passível de reinterpretações constantes, conforme os avanços do pensamento humano. As manifestações dos espíritos e seus ensinamentos são tão respeitados e considerados quanto às opiniões dos maiores pensadores encarnados. A postura característica é de questionamento e avanço com a responsabilidade de quem quer um Espiritismo que liberte das idiossincrasias, dos sincretismos, das latrias e dos formulismos.

A opção pelo viés progressista, livre-pensador e pluralista não é desvio de caminho, mas atalho para alcançar o futuro. Nós devemos isso ao Espiritismo. Ele precisa disso para sobreviver e progredir; para despir-se das máscaras que lhe querem imputar, alijando-o da coroa marcante aposta no topo da abertura da sua obra fundamental: filosofia espiritualista.

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