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Que Karl Marx foi um gênio quer da Filosofia, quer da Sociologia, quer da Crítica da Economia Política, isso poucos ousam questionar, embora muitos - em especial os críticos que nunca o estudaram - costumem apontar "falácias" aparentes em sua obra.
O grande problema, porém, surge quando o seu legado passa a ser 'apropriado' por seus seguidores e admiradores, ou mesmo - e principalmente - pelos seus inimigos (muitos e muito poderosos). Contudo, este é exatamente o mesmo problema que ocorre no legado de outros grandes homens, como Sócrates ou Jesus, em especial quando os “seguidores” tentam institucionalizar a herança recebida. Cristalizar e dogmatizar a obra de Marx em catecismos rígidos é violentar e ignorar a própria essência do mestre. Ao contrário da tradição filosófica alemã, eminentemente idealista e sistêmica, e mesmo da ação tardia de seu amigo Friedrich Engels, Marx não construiu nem pensava em formular uma nova filosofia de sistema que pretendesse ser uma representação acabada do mundo.

Como bem aponta Denis Collin, em Marx a filosofia é uma atividade essencialmente crítica. Crítica mesmo da inversão dos elementos da filosofia que costumam substituir o homem vivo por representações descarnadas, genéricas ou idealizadas deste. Crítica da Economia Política, ou seja, das teorias clássicas da Economia que pretendem explicar como naturais e permanentes as conflitantes relações de produção do capitalismo que, de fato, são apenas frutos das relações de trabalho entre os homens vivos, homens que lutam pela sua existência e que, além da batalha pelo básico, querem amar, ter filhos e criá-los. Esta crítica é a fonte da atualidade de Marx e permanece uma sempre viva força de rejeição de um mundo de consumismo exacerbado que personifica as coisas, endeusa o mercado e reifica/coisifica os homens. Compreender Marx não é, portanto, o mesmo que expor tópicos, decorar teses ou elaborar esquemas de um suposto funcionamento de doutrina, mas é tentar retomar este movimento crítico, este questionar sobre um tipo de ação e pensamento que transforma o mundo em um lugar estranho ao homem e à vida, em geral, como o fez o educador Paulo Freire, por exemplo.

Também o chamado “materialismo” de Marx é um ponto pouco entendido –freqüentemente imensamente mal entendido. O materialismo de Marx é, em sua crítica filosófica e social, um anti-idealismo que, nos sistemas filosóficos e econômicos, tomam o genérico e o mercado como sujeito, o dinheiro como objeto e as pessoas, como meros predicados destes pretensos universais. Não se trata de um materialismo ao modo vulgar ou no estilo do atomismo de Demócrito, mas da desconstrução das generalidades algo vazias dos conceitos da filosofia e da economia política. Assim, em Marx o Estado não é um ente, uma Idéia platônica a existir eterno e a priori, mas sim uma estrutura complexa que, na verdade, reflete o trabalho e a ação de homens vivos, embora possa parecer a estes como destes independentes.

O materialismo em Marx consiste em rejeitar a transformação de conceitos abstratos como “Estado”, o “Homem genérico”, a “mão invisível do mercado” como sendo realidades existentes por si mesmas. A “matéria” do dito “materialismo” de Marx é constituída pela ATIVIDADE prática de pessoas vivas. Não há algo como uma demonstração do primado da matéria sobre o espírito – isso é uma interpretação vulgar e falsa do marxismo -, mas a do primado de que as pessoas valem por si, de que delas surgem tais instituições e não o inverso, de que as pessoas são muito mais que as representações racionais ou conceituais que se fazem sobre elas.

Isso nos remete imediatamente à questão do problema da religião em Marx. Seguindo seu método, Marx vê na Religião o reflexo objetivado do que está nos anseios das pessoas. Estes anseios podem levar a uma busca de concretização espiritual ou, ao contrário, dependendo de quem está no poder, a uma espécie de fanatismo tirânico. Isso pode estimular o surgimento de seitas que perpetuem a ideologia do modo de produção dominante. Isto é fato e é atual. Basta ver o discurso fundamentalista e messiânico de Bush ou ligar a televisão à noite para se notar que a segunda modalidade de atividade ganha da primeira. Infelizmente, a fácil teologia de mercado midiático suplantou a sensível Teologia da Libertação. Assim temos o democrático e ecumênico “Encontro para a Nova Consciência”¹ sendo atacado violentamente por um suposto “Encontro para a Consciência Cristã”, plágioevangélico do primeiro, politicamente poderoso, etc.

Embora a famosa frase “a religião é o ópio do povo” seja usada fora de contexto e recortada do texto em que está, muitas vezes de má fé por simpatizantes e críticos de Marx e da Religião institucionalizada, o que o pensador quer dizer de fato, está contida linhas acima desta finalização tão conhecida encontrada no texto da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel:

“O homem faz a religião, não é a religião que faz o homem. A religião é, na realidade, a consciência e o sentimento próprio do homem que, ou não se encontrou ainda, ou já se perdeu de novo. Mas o homem não é um ser abstrato, exterior ao mundo real. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Esse Estado, essa sociedade produzem a religião (....)

“A religião é a teoria geral desse mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica sob forma popular, seu ponto de honra espiritual, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua razão geral de consolo e de justificação (...)“A miséria religiosa é, de um lado, expressão da miséria real e, de outro, protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida pela infelicidade, a alma de um mundo sem coração, e é o espírito de uma época sem espírito. É o ópio (a anestesia diante da crueldade) do povo”.


¹ Encontro holístico, filosófico e científico realizado todos os anos na cidade de Campina Grande, Paraíba.

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