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Estava recentemente num congresso de comunicadores espíritas, quando uma das palestrantes disparou uma afirmação que causou polêmica entre os participantes do evento, provocando debates e discordâncias no meio espírita. A estudiosa declarou abertamente sua simpatia pela doutrina anarquista, revelando-se contrária a quaisquer formas de dominação e relação de poder.

A sinceridade e coerência da afirmação contrastaram com a reação da maioria dos presentes que mostraram certa dose de perplexidade e aversão à figura da oradora, principalmente numa atitude de condenação a tal opinião, como se realmente fosse paradoxal e incoerente uma pessoa ser espírita e ter idéias anarquistas.

Várias reflexões e análises poderiam ser levadas a cabo a partir do episódio acima relatado, notadamente no que tange às interpretações equivocadas que damos às coisas e na reprodução mecânica de posicionamentos sem qualquer cogitação crítica, fato que atinge grande parcela do movimento espírita. Não é nossa intenção defender o posicionamento da pensadora, apesar de concordarmos com sua idéia, forçando o leitor a pensar da mesma forma. Cada um de nós é um universo próprio de ideologias e linguagens, sendo dever ético o respeito às individualidades, principalmente porque o Espiritismo é uma doutrina dialógica, construída a partir da reflexão e do debate. E é justamente por isso que cabe uma análise dos fatos narrados.

Pondo de lado a relação Espiritismo-Anarquismo, o que mais salta aos olhos é falta de informação e o preconceito. Muitos se prestaram a criticar a afirmação, baseando-se na carga preconceituosa que envolve a palavra “anarquismo”. Tomaram por paradigma a noção de que “anarquismo” é baderna, bagunça, desordem, sem a mínima preocupação de buscar o significado que o vocábulo encerra, vestindo a roupa de juízes e lançando a velha sentença: “isso é anti-doutrinário, é contrário aos ideais cristãos”. Contudo, poucos foram os que, ao chegar a suas residências, buscaram pesquisar e refletir as proposições dos teóricos anarquistas, formulando uma opinião com conhecimento de causa capaz de enriquecer o debate, mesmo discordando da palestrante, já que o crescimento da razão e do saber humano não se dá no consenso cego e sim na relação dialética.

Kardec nunca rejeitou opinião alguma sem a análise profunda, característica do seu espírito de intelectual. Em inúmeras passagens da codificação ele afirma que só se convenceu do Espiritismo depois de um estudo metódico e disciplinado, afastando conclusões baseadas em posições apriorísticas. E, muitas vezes, é isso que falta a nós espíritas. O espiritismo é uma doutrina do livre - pensar, tocando de perto em diversas áreas do saber humano, inclusive a filosofia política. Entretanto, insistimos em engessá-lo, dogmatizá-lo, deixá-lo parado no século XIX, transformá-lo mais num movimento religioso comparável aos tradicionais do que num movimento ético, filosófico, científico e facilitador de uma religiosidade natural, imanente em cada indivíduo. A doutrina espírita não se restringe apenas ao movimento que tem nela o seu substrato ideológico. Ela rompe todas as barreiras de hierarquização e busca se comunicar com todas as religiões e filosofias, trazendo sua contribuição e valorizando sua identidade sem ser fechada e avessa às novas descobertas. Lembremos Léon Denis em sua célebre obra O problema do ser, do destino e da dor: “Allan Kardec pôs-nos sempre de sobreaviso contra o dogmatismo e o espírito de seita; recomenda-nos sem cessar, nas suas obras, que não deixemos cristalizar o Espiritismo (...)”.

O Espiritismo depende do que nós queremos fazer dele. E tomara que o queiramos forte e racional.

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