Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa
 
 
 
 
 
 
Eu também sou anarquista
 
 

Estava recentemente num congresso de comunicadores espíritas, quando uma das palestrantes disparou uma afirmação que causou polêmica entre os participantes do evento, provocando debates e discordâncias no meio espírita. A estudiosa declarou abertamente sua simpatia pela doutrina anarquista, revelando-se contrária a quaisquer formas de dominação e relação de poder.

            A sinceridade e coerência da afirmação contrastaram com a reação da maioria dos presentes que mostraram certa dose de perplexidade e aversão à figura da oradora, principalmente numa atitude de condenação a tal opinião, como se realmente fosse paradoxal e incoerente uma pessoa ser espírita e ter idéias anarquistas.

            Várias reflexões e análises poderiam ser levadas a cabo a partir do episódio acima relatado, notadamente no que tange às interpretações equivocadas que damos às coisas e na reprodução mecânica de posicionamentos sem qualquer cogitação crítica, fato que atinge grande parcela do movimento espírita. Não é nossa intenção defender o posicionamento da pensadora, apesar de concordarmos com sua idéia, forçando o leitor a pensar da mesma forma. Cada um de nós é um universo próprio de ideologias e linguagens, sendo dever ético o respeito às individualidades, principalmente porque o Espiritismo é uma doutrina dialógica, construída a partir da reflexão e do debate. E é justamente por isso que cabe uma análise dos fatos narrados.

            Pondo de lado a relação Espiritismo-Anarquismo, o que mais salta aos olhos é falta de informação e o preconceito. Muitos se prestaram a criticar a afirmação, baseando-se na carga preconceituosa que envolve a palavra “anarquismo”. Tomaram por paradigma a noção de que “anarquismo” é baderna, bagunça, desordem, sem a mínima preocupação de buscar o significado que o vocábulo encerra, vestindo a roupa de juízes e lançando a velha sentença: “isso é anti-doutrinário, é contrário aos ideais cristãos”.  Contudo, poucos foram os que, ao chegar a suas residências, buscaram pesquisar e refletir as proposições dos teóricos anarquistas, formulando uma opinião com conhecimento de causa capaz de enriquecer o debate, mesmo discordando da palestrante, já que o crescimento da razão e do saber humano não se dá no consenso cego e sim na relação dialética.

   Kardec nunca rejeitou opinião alguma sem a análise profunda, característica do seu espírito de intelectual. Em inúmeras passagens da codificação ele afirma que só se convenceu do Espiritismo depois de um estudo metódico e disciplinado, afastando conclusões baseadas em posições apriorísticas. E, muitas vezes, é isso que falta a nós espíritas. O espiritismo é uma doutrina do livre - pensar, tocando de perto em diversas áreas do saber humano, inclusive a filosofia política. Entretanto, insistimos em engessá-lo, dogmatizá-lo, deixá-lo parado no século XIX, transformá-lo mais num movimento religioso comparável aos tradicionais do que num movimento ético, filosófico, científico e facilitador de uma religiosidade natural, imanente em cada indivíduo. A doutrina espírita não se restringe apenas ao movimento que tem nela o seu substrato ideológico. Ela rompe todas as barreiras de hierarquização e busca se comunicar com todas as religiões e filosofias, trazendo sua contribuição e valorizando sua identidade sem ser fechada e avessa às novas descobertas. Lembremos Léon Denis em sua célebre obra O problema do ser, do destino e da dor: “Allan Kardec pôs-nos sempre de sobreaviso contra o dogmatismo e o espírito de seita; recomenda-nos sem cessar, nas suas obras, que não deixemos cristalizar o Espiritismo (...)”.

O Espiritismo depende do que nós queremos fazer dele. E tomara que o queiramos forte e racional.