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Em música de Belchior que Elis imortalizou, o poeta lamentava: “Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.
Penso que a grande tragédia do mundo reside no fato de ainda ser imenso o número de pessoas que não conseguem perceber o real significado da existência humana. Os índices elevados de criminalidade, a corrupção e o desrespeito a princípios elementares de convivência social, a guerra, a fome e as matanças são expressões inequívocas do descompasso entre as leis da vida e a forma como as encaram os homens.
No mês que recém findou, um ato de pura barbárie, ocorrido em nosso país, com o assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang , na cidade de Anapu , causou revolta e indignação em todas as pessoas com um mínimo de dignidade e bom-senso. Apenas um episódio com maior visibilidade. Diariamente, na cidade e no campo, vidas são ceifadas em troca de interesses mesquinhos, numa total inversão dos valores fundamentais da vida. A maioria desses crimes talvez nem chegue ao conhecimento de quem de direito e jamais serão julgados. A vida humana vale pouco ou nada para quem não é capaz de perceber porque nascemos, porque vivemos e porque morremos.
Milhões de anos de evolução não conferiram ainda a grande parte do gênero humano a compreensão de sua essencialidade. O egoísmo e a ganância, forças motrizes da maioria dos atos “inteligentes”, obstaculizam a percepção da mais singela das verdades, a de que somos seres em busca de luz e de que esta procede de dois focos: o amor e o conhecimento.
O processo evolutivo, no campo ético e moral, se dá, assim, de forma mais lenta do que seria de esperar. Daí a angústia do homem frente ao próprio homem, sua dor em perceber, como disse o poeta, que “ainda somos os mesmos”, embora intimamente convencidos de que mudar é preciso.
Quando falei antes da incapacidade de percebermos nossa essencialidade, poderia perfeitamente substituir aquela expressão por espiritualidade. É preciso resgatar esse valor. A concepção materialista de vida, por mais que logre despertar movimentos de reforma social e política, jamais conduz ao âmago da questão da vida. Pode estimular a competição, muitas vezes saudável. Pode até inspirar belos programas de justiça social. Mas não atinge a consciência mais profunda do homem. Este, quando pode, burla a lei, e o faz, iludido pela idéia de que vida é matéria e que, fora de seu âmbito, o proceder humano não gera conseqüência alguma.
As grandes tragédias, a guerra e a violência, têm provocado significativos movimentos de reação, entre as pessoas de bem. Ótimo! Mas a indignação não resolverá o problema, enquanto fatos dessa natureza não conduzirem a uma atitude de compreensão do homem a respeito de si mesmo. É preciso, enfim, resgatar a essencialidade humana que outra não é senão a do espírito imortal, sujeito de direitos e obrigações entrelaçados num delicado nexo de causas e efeitos que antecedem o berço e vão além do túmulo.
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